Eu só queria beber e me divertir. Era final de um ciclo, encerramento da graduação, e
estávamos lá, todos os formandos reunidos para comemorar. Entre vodcas e danças,
uma amiga puxa meu braço e diz: “Quero te apresentar uma pessoa”. Não foi amor à
primeira vista, mas certamente foi tesão à primeira vista.
Beijamos como se estivéssemos sozinhos na pista. O clima esquentou, e fomos para a
casa dele, de táxi. No banco de trás, continuamos a nos beijar e, claro, as mãos fluíam
conforme o ritmo do beijo. O taxista? Não faço ideia do que pode ter pensado, mas
prefiro pensar que ficou excitadíssimo com a cena.
O corpo dele era repleto de pintas. Eu mapeei as costas. Respirei cada pinta, entre o
movimento das idas e vindas o sexo foi incrível.
Amanheceu.
Começamos a conversar sobre música, e entre o universo da música clássica
instrumental e o pop de Lady Gaga ele abre o guarda-roupas ao lado e começa a cantar
Riptide, do Vance Joy, apoiado pelo som carinhoso do ukulelê.
E então minha consciência me questiona se há algum sentido em se sentir apaixonado
por um cara aleatório que conheci a exatas 5 horas. Eu só posso ter algum problema
de carência, não é possível.
Eu, justo eu, que me julgava a pessoa mais madura do mundo aos 23 anos de idade,
estou perdidamente apaixonado por ele, o rapaz do ukulelê que trabalha em um dos
maiores escritórios de advocacia da cidade.
O celular vibrava com a notificação de mensagem, e o coração acelerava. Entre
debates sobre a rivalidade entre a vice-miss Bumbum, Andressa Urach, e a Dona
Furacão da CPI, Denise Rocha, bem como a tensão política na Ucrânia, veio a certeza:
estou apaixonado e foda-se, quero viver essa paixão.
Após dois ou três sexos memoráveis, eu o convidei para jantar comigo, já que no dia
seguinte eu viajaria. Ele aceitou o convite, mas não jantei com a mesma pessoa do
ukulelê. Jantei com a decepção de uma paixão não correspondida.
Acontece. A decepção acontece.
Quem decide o sucesso ou o fracasso de uma possível relação? O sol em gêmeos dele.
Não suporto geminianos.
Depois de algumas sessões de terapia, consegui ouvir Riptide novamente. Ele foi um
aprendizado, uma passagem. Entendi que naquela situação, eu decidi pelo fracasso.
Sim, eu mesmo junto da minha carência, além da excitação por tudo o que ele
representava nas minhas idealizações e expectativas.
Eu precisei quebrar a cara para, mais uma vez, lembrar o óbvio: enquanto eu não der
atenção suficiente para mim mesmo e dar a prioridade às minhas demandas, alguém
vai se sentir no direito de decidir o que vira sucesso ou fracasso.
Obrigado, D. Se não fosse por você, eu jamais entenderia que apaixonar-se é uma
delícia, mas que apaixonar-se por uma expectativa é tão desafinado quanto a sua voz
cantando Riptide na beirada da cama.
Obrigado, finalmente, pela oportunidade que tive de reconstruir meu coração.
Quem nunca, né?
Obrigado, D. por fazer de um coração brilhante, um brilhante blindado.
Texto lindo como o autor.
Porra!!
O sol em gêmeos é foda e fode o nosso coração :/
Um dos melhores textos da coluna. Amei!